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Rômulo de volta ao Japão

Friday, 31 March 2006

5 dias até a chegada em Narita.

Nossa, nem percebi como faz tempo desde meu último update. Vamos ver se me lembro de tudo que aconteceu. Fiz uma despedida grande no sábado passado, onde consegui juntar boa parte do povo que queria dar um abraço antes de ir embora. Dos que não foram, encontrei dois ontem e o resto, 100% macaenses, vou encontrar no sábado. Tomara que eles apareçam.

É engraçado, eu antes achava hipócrita me despedir de pessoas que eu não via há um ano, um ano e meio, desde que voltei ao Brasil. Pessoas que não me procuraram, assim como eu não as procurei. Mas daí comecei a sentir o que realmente isso tudo significa. Cara, eu tô indo embora! Não sei quando volto. A bolsa dura dois anos, é verdade, mas eu não tenho mais vínculos com o Brasil. Tudo aquilo que me falavam quando fui da primeira vez, que eu podia não voltar, que ia arranjar emprego por lá, agora pode ser verdade. Sei que não é uma verdade muito fácil de engolir, mas é a real. E esse povo, que mesmo sem eu ver há um ano e meio, pode estar se sentindo como se perdesse uma certeza, que se fosse até o nono andar do prédio da UERJ no Rio iria me encontrar. E é esse tipo de certeza que mantém amizades mais longas do que a gente imagina, mais do que cartões de Natal e aniversários. Eu pude passar um ano e meio sem falar com pessoas que, agora, eu sinto que vão me fazer falta desse jeito, porque vão deixar de ser certezas.

Tenho uma confissão a fazer (dentre as muitas que planejei antes de ir embora). Meu plano não era esse. Se os entrevistadores do consulado lessem este blog achariam estranho eu falar de modo tão fatalista, "vou-me embora", mas este não era o meu plano inicial. Queria muito viver no meio. Para mim, seria ideal contribuir dos dois lados, com minha tão pouco valorizada profissão de professor, vivendo um tanto cá quanto lá. Mas não sei quando isso será possível.

Uma coisa que peço para que me entendam é aquele velho clichê: ponha-se no meu lugar. Eu vou para passar dois anos, pode ser que entre no mestrado. Se entrar, beleza, um objetivo cumprido. Mas pense bem, mestrado na Universidade de Tokyo! Seria um título inédito dentro da historiografia brasileira, pelo que pude entender, e tão valorizado lá quanto aqui. Se fizesse mestrado em uma universidade japonesa qualquer, voltaria para o Brasil com um título tão valorizado quanto o da Univ. de Tokyo, afinal, para os analisadores de currículos daqui não faz diferença aquele monte de casinhas e tracinhos sem sentido que é o japonês. Mas lá, um título de mestre em história pela Todai é o bastante para começar a dar aulas em uma universidade, e com as vantagens de estar no Japão.

Não digo isso como vantagem de qualidade de vida, de segurança, de salário. Essas são vantagens óbvias e que decido não incluir na conta para não ser injusto com as vantagens intangíveis e mais óbvias ainda da minha terra natal. As vantagens do Japão às quais me refiro são o ambiente de pesquisa, formado pelas bibliotecas e pesquisadores da mesma área, com quem posso manter um diálogo frutífero. Não são muitos os pesquisadores que trabalham com os jesuítas no Japão, ou os portugueses no Japão, dá na mesma, mas é um número bem maior do que aqui, claro! E as bibliotecas, voltadas para este assunto, dispensam qualquer viagem à Europa. Seus arquivos contém conteúdos contidos (credo quanta redundância!) nos arquivos europeus. Só isso já é uma grande vantagem.

Pensando no lado pessoal, eu poderia dizer que não iria. Seria muito mais compreendido do que estou sendo agora. É engraçado esse jeito de ser das pessoas, se digo que estou indo embora para um lugar com oportunidade de trabalho, pesquisa, bons empregos etc, mas estou deixando a família para trás, isto é ruim. Se digo que fico, e deixo aquela oportunidade passar, isto é ruim, mas não tanto. Realmente, Sérgio Buarque tinha razão, o homem brasileiro é um homem cordial. Será que poderíamos chamar a isto de ética católica? Sei lá, os teóricos que se preocupem com isso.

Engraçado como minha chegada já está envolta em planos. É quase como se meu cotidiano pudesse continuar. Já tenho encontros, festas e restaurantes marcados para depois da minha chegada, e ainda nem pus o pé no avião. O que a internet não faz...

Meus dias tem sido assim. Despedidas e malas. Os dias agitados e corridos de documentação e burocracia se passaram. Por enquanto, claro, depois que chegar lá vou enfrentar o monstro da burocracia japonesa. Não sei qual dos dois, se o monstro tupiniquim ou o nipônico (porra, lá vou eu usar estes clichês de jornaleco) é pior. Mas que ambos são monstros, isso sim.

Agora chega de escrever. Talvez volte a escrever antes de ir pro Japão. Talvez não, talvez fique com minha família, com meu irmão, este menino tão grande que logo vai parar de querer carinho e cócegas de criança para tapinhas nas costas encabrunhados de adolescente. E eu não vou estar aqui. Sentiu o drama? Então não reclamem se não houver novas despedidas, mais festas e abraços. Isso já tenho o bastante aqui em casa.

posted by RomuloEhalt | 03/31/06 09:59 | comments


Friday, 17 March 2006

18 dias...

Hoje fui na UERJ tentar resolver minha vida. Fui determinado a sair de lá somente quando tivesse em mãos os dois documentos cruciais para que o assunto "faculdade" acabasse nesses últimos dias no Brasil, isto é, a Certidão de Conclusão de Curso e o Histórico Escolar final.

A faculdade no Japão me pediu esses dois documentos, mas como eu não os tinha hoje de manhã, resolvi mandar o que tinha aqui em casa: uma declaração da secretaria dizendo que conclui o curso e uma lista de disciplinas cursadas tirada da internet. Fui no correio e depois de voltar para casa pegar o endereço que tinha esquecido e encontrar minha mãe na rua consegui enviar, por módicos 67 reais, seis folhas de papel para o outro lado do mundo. Ossos do ofício.

Chegando na UERJ, uma hora depois, encontrei, na mesma sala, a prova concreta de que meu santo é forte e não me abandona. Estavam lá o chefe da secretaria da minha faculdade, a diretora da faculdade e a coordenadora pedagógica responsável pela minha faculdade. A diretora então determinou que os dois se pusessem a trabalhar e a todo custo me entregassem os documentos hoje.

Comecei então minha maratona, acompanhado do poderoso chefe da secretaria ao meu lado. Entramos em diversas salas, brigamos com diversos funcionários, confrontamos processos, despachos, guias, formulários... por fim, meu companheiro pereceu. Teve que retornar para seu posto de chefe da secretaria, deixando-me sozinho, no aguardo de um certo funcionário em um certo departamento que chegaria apenas às 3 da tarde. O que fazer numa hora dessas? Comer!

Fui-me almoçar então no Planeta do Chopp, aquele grande bar-restaurante no começo do Boulevard 28 de Setembro e que tantas vezes foi visitado pelo Martinho da Vila. Junto comigo estava minha caríssima professora de cultura japonesa, cuja amizade posso dizer que desfruto desde os idos de 2001. Após uma agradável hora de conversa e algumas corridas atrás do reitor e de outros grandes figurinhas da UERJ, maratona pessoal da professora, vi-me então novamente abandonado à própria sorte.

Como já se faziam quase três horas, fui ao encontro do tal funcionário. Ao ver que ele não se encontrava no local esperado, imbuído de determinação fui de novo ver a orientadora pedagógica uerjiana. Surpresa, surpresa, ela ficou espantada com a minha situação incompleta, e após esbravejar contra o não-resultado do trabalho de outrem, levou-me aos confins obscuros nas entranhas da UERJ. Vi o arquivo da universidade, com os dados e não-dados de todos os alunos de muitos anos; diretores e chefes de departamento, atarefados com seus papéis e urgências; técnicos de informática, atolados em meio à diversas correções de notas esperando para se lançarem no sistema. Em um corredor, perto do coração da Universidade, fui instruído pela orientadora a sentar e aguardar um pouco.

A burocracia nada mais é do que isso. Você alimenta ela com papel, ela pede quitutes especiais, é mais criteriosa que desejo de gestante, e no fim aguarda. Nunca se sabe o que vem, se um filho, belo e aguardado, ou merda, infeliz resultado que nos obriga a novamente inseminar a máquina com mais papel, mais cópias de outros papéis, atestados, comprovantes, nada-constas e certidões.

20 minutos se passaram entre uma olhadela no livro que eu tinha à bolsa, um boa-tarde a uma burocrata transeunte e aferições do tempo no relógio embutido no celular. Ao fim, ouço um "Rômulo?". É a burocrata, que me pede em troca dois recibos de requerimentos para por fim me entregar os tão desejados documentos.

Feliz, contente, satisfeito, corro a declarar meu imortal amor pela capacidade e competência soberba da orientadora, contar as novidades para o chefe da secretaria e a diretora da faculdade. A última não encontro, mas não menos feliz me quedo; em ônibus lotado de retorno às águas escondidas de Niterói sou talvez o único a não pensar no calor confinado dentro do carro.

Palavra do dia: Acabou. Mas essa história é tal e qual filme ruim. Você acha que acabou, mas algum diretor sempre resolve dar seu pitaco, reviver num remake, partir para um spin-off, e daqui a algum tempo terei de me preocupar em instruir meu pai, estando eu no Japão, a buscar meu diploma. Então, e somente então, poderei enfim colocar um ponto final ao cabo deste texto chamado graduação. Amén.

posted by RomuloEhalt | 03/17/06 00:13 | comments


Monday, 13 March 2006

21 dias... um pouco mais, um pouco menos, e o tempo não pára......

Enfim, acabei (quase) tudo na UERJ. Agora eles estão me devendo só o certificado de conclusão de curso e meu histórico acadêmico final. Daí o negócio é traduzir e mandar para o Japão. Fácil, certo? Errado. Existe uma grande chance de começar uma greve, sendo que as datas mais prováveis são dia 16 (segundo alguns funcionários) ou dia 13 (segundo alguns orkuteiros). Só esperando pra saber. Mesmo porque eu não vou hoje na UERJ para descobrir!

Falando em Orkut, resolvi não sair dele. Aliás, não foi tão difícil me convencer do contrário, bastou uma conversa com um amigo da faculdade e concluir que existem grandes vantagens em ter sempre alguma coisa que me lembre do aniversário dos outros. Simples assim.

E se um orkut incomoda muita gente, dois orkuts incomodam muuuuito mais! Entrei para o Mixi (www.mixi.jp), que é conhecido entre meus amigos japoneses como o "orkut japonês". É basicamente a mesma coisa, com o acréscimo de um diário público e um sistema de mensagens bem mais reservado, como uma caixa de e-mails. Nada de penetras e espiões observando minha vida! A não ser, é claro, através deste instrumento oficial de perscrutação que o senhor ou a senhora podem ler agora, chamado blog.

Outra coisa que aconteceu esses dias é que finalmente fiquei sabendo meu endereço no Japão. Vou morar no dormitório de Komaba, uma área próxima à Shibuya, que é um centro de boates, bares e juventude. Excelente para gastar dinheiro, péssimo para se planejar o futuro. Este dormitório é dividido em cinco prédios, sendo os dois mais antigos os melhores: quartos maiores, banheiro privativo, boa iluminação. Os três mais novos têm um banheiro por andar, quartos bem menores e parece-me que são mais próximos das linhas de trem, ou seja, mais barulhentos que o resto. É claro que estou torcendo para ficar nos prédios mais antigos, e pelo jeito é só isso que posso fazer, torcer, já que é tudo escolhido por sorteio.

Pois é, lá vou eu de novo. E vai ser como recomeçar tudo outra vez, já que a maioria dos meus amigos nem moram mais em Tóquio, ou já se formaram e estão trabalhando. É engraçado, acho que isso me incomoda às vezes menos do que deveria, segundo opinião de terceiros, já que sempre penso que posso encontrar pessoas novas, fazer novas amizades e ainda assim continuar alimentando as antigas.

Chega, depois escrevo mais.

posted by RomuloEhalt | 03/13/06 10:48 | comments

O Rômulo ficou maluco? Perdeu a cabeça? Comeu cocô? Não, ele só está de volta ao Japão!