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Rômulo de volta ao Japão

Tuesday, 18 April 2006

Finalmente um update direto do Japão! E com direito a acentos, pq eu aprendi a instalar o português nesse computador! Viva! Eeeeeehhhh!!!! Não que eu tenha aprendido a instalar o português na minha cabeça...
Bom, cheguei aqui no dia 5 deste mês, cansado, depois de uma baita aventura para conseguir refazer o check-in e pagar o excesso de bagagem em Vancouver. No aeroporto esperava que alguém fosse me receber, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir depois o motivo pelo qual ninguém foi: eu não disse q horas chegava! De qualquer jeito lá estava todo o staff da JASSO, um associação que auxilia os estudantes estrangeiros no Japão. Nos encaminharam para uma salinha reservada para registrar nossa chegada, ganhar os 25000 yenes de ajuda de custo inicial e depois despachar nossas bagagens pelo serviço de entrega. Nos colocaram dentro de um táxi e lá fomos nós. Junto comigo mais dois novos amigos bolsistas brasileiros, que enquanto um dormia outro escutava pacientemente minha incessante tentativa de demonstrar que realmente conhecia Tokyo. "Olha, aqui é Mainohama, onde tem a Disney", "olha, aqui é Odaiba, onde fica a Fuji TV e o outro dormitório do Monbusho", "olha, aqui em Shinagawa fica o escritório de imigração", etc. Chegamos no dormitório ali pelo final da tarde, depois de duas horinhas no táxi do Awaiibara-san (o taxista). Após um mini-tour até o quarto, arrumei a cama e desabei.
Nos dias seguintes, me tornei guia não-oficial do grupo de brasileiros do dormitório, para alívio da menina que mora aqui desde outubro. Além dela havia ainda outra brasileira, mas essa a gente vê muuuito de vez em quando, só quando as coincidências da rotina dela de ir e voltar da faculdade permitem. Passeamos então em Shinjuku, Shibuya, Ikebukuro, Kichijoji, até que eles começaram a tomar fôlego e voar por conta própria, para ir aos lugares q não me agradam tanto em Tokyo, como Roppongi e Asakusa. Nesse intervalo, fomos devidamente registrados na sub-prefeitura da região de Meguro, e estamos agora no aguardo da nossa identidade de alien. Não é brincadeira, o nome do documento em inglês é Alien Registration mesmo!
Também pude ir algumas vezes à Todai, conhecer seu imenso campus de Hongo. Em quase todas as vezes que fui alguém me guiou pelo campus, logo já conheci alguns lugares quatro vezes. Em meio a orientações, auto-apresentações, milhares de nomes japoneses que não vou lembrar até perguntar de novo, as aulas começaram. Começaram esta semana, meio às escuras, silenciosamente, na segunda feira. Tinha eu uma aulas de Kanji às 10:40 da manhã, mas um alarme de celular mal-programado e uma imensa quantidade de preguiça me impediram. Fui então à tarde onde vi o primeiro zemi da minha vida. Mas Rômulo, que diacho é zemi, vc pergunta. Ah, zemi é o modo carinhoso pelo qual os japoneses chamam os seminários, um tipo de aula super-interessante onde um professor propõe um tema e uma certa atividade para ser realizada pelos alunos, logo toda aula é uma apresentação de algum relatório sobre a atividade proposta. O zemi de ontem foi do Murai, meu orientador, e foi interessante ver q ele me tratou com certa proximidade, interrompendo um pouco a explanação inicial da proposta daquele zemi para explicar coisas básicas sobre a leitura de documentos japoneses (atividade do zemi dele) e conferir se eu realmente entendi tudo. Acho que vou conseguir, apesar de tudo, estabelecer uma boa relação cordial com meu orientador. Ufa!
Digo isso pq na semana passada, na quinta-feira, fui ter uma conversa com ele sobre as aulas que pretendia assistir e sobre minha intenção de entrar no mestrado da Todai. Ele me olhou com espanto e disse, em claro e bom japonês, "Com o seu nível de japonês, este ano, é impossível". Meus olhos sofreram muitíssimo para segurar as lágrimas que queriam forçar a saída, meu queixo mordeu com força para evitar os embaraçosos tremeliques; as únicas que não puderam se conter foram as pernas que, sob a segurança da sombra da mesa, se agitaram e estremeçeram incansavelmente. Mas, para sossego geral da nação, ele seguiu a dura afirmação com um raio de esperança, disfarçado sob a frase "mas, se vc se esforçar, ano que vem talvez". Existe uma luz no final do túnel. Agora só resta eu me esforçar!
Os dias no Japão tem se passado assim, com fortes emoções, cerejeiras que cada dia mais perdem suas flores e seu brilho, um frio que insiste em não ir embora e que promete um verão mais fresco, e sonolência em horas inapropriadas. Mas vamos abordar agora as últimas novidades: ontem fui fazer sumô. Cheguei da aula ali pelas 5:30, e coloquei-me então a procurar pelo local de treino de sumô no campus de Komaba, da Todai, aqui do lado do dormitório. Após algumas frustrações, encontrei, escondido, entre o campo de atletismo e o de rugbi, a sala de treino de sumô. Uma gravura de um yokozuna da Era Edo, nada atraente aos olhos comuns, à porta, impressa sobre um papel cartão, com os dizeres "Sumô-bu" (Clube de Sumô). Entro, após hesitar uns instantes, e me encontro com um senhor, de terno, sentado sobre o tatami elevado acima do barro da área de treino. Penso cá comigo "é o cara que cuida do local, certo?". Errado! Ele conversa comigo, diz que se lembra de ter me visto em uma das orientações da faculdade de história na semana anterior, e começa a se despir para colocar o mawashi (sim, sim, aquele fraldão do sumô). Meus amigos, o velhinho, que parecia tão pequeno debaixo das camadas de tecido do paletó, de repente se mostrou um armário. Tá, não um armário, pq ele era muito baixinho, talvez um gabinete, um rack. Mas jamais pensei que alguém com quase 70 anos pudesse ter uma forma física daquelas. Coloco eu tmb o mawashi, e começam a chegar os outros membros do clube, mais cinco japoneses: quatro estudantes e um ex-campeão estudantil. Começamos o treino, e descubro então como é difícil o sumô! Usando do próprio peso como resistência para alongamentos, o aquecimento se mostra uma sessão de intensa musculação. No calor do treino não senti nada, mas depois que voltei para casa, quase não conseguia andar! Até agora, aliás, me sinto como um paraplégico SEM cadeira de rodas! O pessoal foi muito amistoso, e como sou quase três vezes maior que a maioria, treinei com o professor. Que coisinha difícil tirar o velho do círculo. Em uma das vezes, ele me jogou para o lado com facilidade, fato que resultou em um joelho esfolado e algumas dores de bônus. Cheguei em casa após quase três horas de treino, e até agora ainda é forte aquela pulga maldita atrás da orelha gritando "vc tem certeza que vai voltar lá na quarta-feira?". Mas, a consciência, plena e onipotente, me diz q se começar a desistir disso agora nunca mais vou ter outra oportunidade. Então, não tem jeito, o negócio é se esforçar mesmo.
Acho q é só isso. Por favor, comentem qualquer coisa, para que eu sinta que o blog está sendo lido. É meio frustrante escrever isso tudo e não receber qualquer reação. Até o próximo update!

posted by RomuloEhalt | 04/18/06 00:09 | comments (6)

O Rômulo ficou maluco? Perdeu a cabeça? Comeu cocô? Não, ele só está de volta ao Japão!